sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

o sábado é de
plástico-bolha
promessa de felicidade
luzes desmaiadas
numa festa da memória
cheiro de gasolina
esfirra no micro-ondas
da loja de conveniência
vale-disco da hi-fi
raindrops keep
fallin’ on my head
e o telefone dela
num papel amassado

 checklist

o farol da praia de agnés varda
castelinho de areia desfeito
o aro dos óculos de acetato
o sol nos olhos castanhos
mil tons do vestido preto
um acorde de summertime
as capas das revistas de moda
astaire no palco de papelão
piquenique e jogo da amarelinha
um saquinho de pipoca doce
suspiros na ponte cenográfica
uma chuva de inverno temporão
o lanterninha do cine marrocos
os desenhos ondulados da calçada
o triciclo com cestinho de flores
o verso bordado na pele
chiclete on the rocks
o álbum amar é
um retrato ao acaso
o balcão da La suíssa
só esqueceu o lembrete
desviar-se da quina dos
móveis pé de palito que
inibem seus caminhos

 radiografia

as horas têm vozes
monótonas
repetem a mesma conversa
sem mistério
nas filas e ruas escuras
a miragem
desfeita dela
como um eco rindo
das nossas caras
a cidade pátio aberto multidão
a escada de ferro cheiro
de mijo
os dias e o silêncio cruel
parecia
mas não era
uma jarra quebrada

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

 chocolamour


o vestido de verão 

guardava as manhãs 

e as cores explosivas 

das despedidas


rios desaguando 

nos olhos perplexos 


vagão fora dos trilhos 

caco de vidro um tranco 


na tarde em que o pé 

roçou a calcinha embaixo

da mesa 


um movimento de tango 

as ilusões passadas 

já não posso arrancar 


no balcão da lanchonete 

a taça de chocolamour 

derrete esperando você 





domingo, 5 de julho de 2020


a loja de pesca na
galeria domingos de
moraes
anilina entre os dentes
da menina mascando
chiclete na galeria
domingos de Moraes

inventários de
ausências azuis
na escadaria antiga da
editora
do outro lado da rua
domingos de Moraes

à espreita, travessa
machado de assis
olhos ambíguos cor de
césio
bilho, sinal de perigo
da moça no ponto de
ônibus da rua domingos de Moraes

terno cinza na porta do
alfaiate
loja que treina pombo-correio
peixe beta e saudade
na galeria domingos de
moraes

quarta-feira, 24 de junho de 2020

em paranapiacaba
cabanas fraturam a serrania
nervos de ferro dos comboios
ferrorama em tamanho natural
do campo de charles miller
aos trens que rangem longe das gerais

quarta-feira, 3 de junho de 2020


ardis

um tropeço, engano
blefe de baralho fajuto
um corpo pendurado
na escadaria da 23 de maio

mudei de calçada

a esquina verga a rua
uma rasura
traço ao acaso

asfalto que apressa os passos
de um calendário ralo